descanse em paz

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Descanse em paz é um diálogo sobre a fome e sua relação com a religião. Por isso escolhi para ilustrar o poema a obra Retirantes: é um quadro de Candido Portinari, pintado em 1944.

Descanse em paz, meu poema, também tem criança como personagem. Já na pintura de Portinari, no entanto, são várias. E uma das crianças, em pé, tem uma barriga enorme. Mas o que seria isso? É a doença que provoca a “barriga d’água” (esquistossomose). Ela é comum em locais de pobreza extrema e falta de água tratada. Descanse em paz, a expressão, vem, portanto, dessa cena mórbida. É uma antevisão do que irá ocorrer, provavelmente, com a família. Mas a tal barriga d’água, por exemplo, não acontecia apenas com os retirantes nordestinos retratados por Portinari. No início do século XX, nos centros urbanos do Brasil (Rio de Janeiro em especial), era comum crianças terem barriga d’água por causa da falta de saneamento básico e da pobreza extrema. E a religião, enfim, é o que norteia o comportamento de esperança dessa gente.

 

– vai rezá, minino!
– não, gradeço vossa preocupação
– cê num é católico?
dito isso o moço bondoso vai à missa. Ele foi rezá.
(“na certa pra mó dimi ajudá, pensa o minino)
I o minino pensa e responde a pergunta lhe feita:
“é difícil rezá de barriga vazia…”

– mas que heresia!
e tua fé, minino, cadê?

– sei lá, deve de tá sendo digerida pelo meu
estomaguinho, numa das muita ilusão com que me
alimento nesse corpinho de pagão.

– mas que heresia!
sufrimento enobrece o homem
e num carece chorá
tu logo vai sê santo, tu logo vai tá no céu.

 

– pode tê certeza
cu’esse corpinho que os home me deu logo vô pra sete palmo do chão
Quanto a virá santo no me serve,
pois só di sabê qui otrus comigo vão si consolá da fome qui sentirão
me dá    a n g ú i o   na barriga i sede no coração
Minha vontá nu é sorrir qui dente nem sei qui é,
minha vontad’ é vivê como gente qui tem que sê

– mas ói! qui triviment’esse!!
tu, uma coisica de nada,
num devia falá mais que boca fechada

– mas num sô eu qu’tô falano
que minha língua já comi
num sô eu qui digo tanta coisa (tanta heresia)
num sô eu qui pede tanto cada dia
Mas num sô filho de alguém.
Nessa vida, quem eu mais conheço chama Ninguém.

– pois então me dê ciência,
quem é tu, ó transparência?

pois eu sô, sim sinhô
que nada mais
que tua Consciência

que tua Consciência.

 

Vocabulário inventado pelo autor – *angúio* = embrulho (no estômago) = náusea = ou seja, está no sentido de aversão ou repugnância… neste caso, o menino se sente mal ao imaginar a hipótese de que ele poderia servir de imagem para outras pessoas famintas se consolarem da dor da fome… desse modo, ele não quer ser mártir… o que ele quer, realmente, é só não quer sentir fome, além disso, quer que os outros também não sintam fome… portanto, ele deseja resolver a fome, sim, mas não suavizá-la com “consolos”… e, finalmente: a imagem de um consolo lhe dá náuseas…
quer saber mais do que faço neste site, além de poesia, crônicas, contos, jornalismo e artigos e …?

Além desse poema Descanse em Paz, sobre religião e realidade vivida, que está no meu livro Autoconhecimento na Prática, também tenho outro livro, este de contos, que se chama Os suicidas e outras histórias <= clique no link e compre a versão digital. Mas não paro por aí. Eu tenho outras coisas, como cursos: autoconhecimento, comunicação, oratória, redação (curso exclusivo). Mas vou falar dos três primeiros aqui (e muito mais do primeiro curso):

Meu cursos são basicamente análise e interpretação de discursos, tanto em oratória, quanto em comunicação quanto em autoconhecimento. Porque isso está ligado nos três cursos. Eu uso literatura, filosofia e cinema para analisar a cultura digital atual. Vou desconstruindo conceitos, os reformulo e mostro que nada é o que parecer ser e que nós menos ainda. Enfim, essa é a base.

como assim?

Quanto ao que cada aluno vai aprender depende do conhecimento dele. Eu simplesmente parto de onde ele está. Por isso, no dia da aula experimental, farei duas coisas. Mostrarei onde pretendo chegar e como farei isso. A segunda coisa será fazer um diagnóstico do quanto o aluno sabe de cada curso. Além disso, farei perguntas simples, como, por exemplo, como ele define o que é beleza. Espero a explicação e aí eu já desenho o perfil cultural do aluno.

E as aulas, os textos e a complexidade das aulas vão de acordo com o nível dele. O tempo do curso depende da disponibilidade do aluno, mas eu vou pedir no mínimo 3 horas de estudo semanais (cada aula online por uma hora e meia). Então, eu não faço milagres, não vendo milagres, não acredito em milagres, por isso, na aula experimental digo que o curso pode levar meses (cada aula, um tópico mais ou menos). E os tópicos (do curso de autoconhecimento) são… peraí… clique aqui que eu mostro a grade de autoconhecimento.

é isso. abraços.

2 Comments on “descanse em paz

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