Algoritmos e Jornalismo: como as Métricas Moldam a Notícia

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Algoritmos e jornalismo não formam uma dupla sertaneja nem um casal famoso de Hollywood.

Notebook aberto exibindo gráficos sobre engajamento de rede e um slide com o título Caleidoscópio de Amorim, discutindo algoritmos e jornalismo sobre uma mesa de redação.
A mediação da realidade na era da infocracia: o cruzamento entre as rotinas do jornalismo clássico e o monitoramento algorítmico das métricas de audiência. (Foto: Caleidoscópio de Amorim e Gemini)

É apenas a nova dor de cabeça das redações da era digital. Também pode ser dois tipos de refeição que criam um prato sofisticado e de grande alcance popular. Depende da chef da cozinha, do cozinheiro da família, ou do chapeiro da lanchonete que é a infocracia digital.

Se você abriu este texto esperando uma receita de bolo ou uma lista mágica de “dicas de internet” para fazer sua grande reportagem viralizar, sinto decepcionar. Não funciona assim.

No jornalismo de profundidade, naquilo que chamamos de longform e jornalismo lento, o buraco é bem mais embaixo.

A verdade nua e crua é que vivemos em um ecossistema digital onde a linha entre o que o público realmente quer ler e o que o algoritmo decide entregar é cada vez mais invisível. A informação é infinita, mas o excesso dela não nos torna mais sábios; apenas nos confunde. É preciso desmistificar a engrenagem para entender como o conteúdo sério e investigativo sobrevive ao massacre das métricas. Para isso, vamos tratar de algumas obras recentes essenciais.

Algoritmos e jornalismo – a Ditadura do Clique e a “Especialização Metrificada”

O fazer jornalístico tradicional, sustentado pelo faro da pauta e pelo interesse público, está sob forte intervenção. No artigo intitulado Especialização Metrificada: Agenciamentos entre Plataformas e Jornalismo em GZH, publicado no ano de 2026, as pesquisadoras Paola Martins Jung e Laura Storch investigam como o processo de plataformização redesenha as rotinas produtivas da reportagem de fôlego, focando na circulação e na visibilidade das notícias.

Paola Jung e Laura Storch e o conceito de especialização metrificada

E como fazem isso? Mapeando a tensão vivenciada por repórteres especiais cujos critérios tradicionais de noticiabilidade passam a sofrer interferência direta de relatórios analíticos de audiência e engajamento. O algoritmo não é só uma ferramenta técnica. Ele senta na mesa de edição.

Essa obsessão pelo tempo de permanência na página altera a própria arquitetura visual e o planejamento de narrativas longas. Não basta mais apurar com rigor. Para salvaguardar o alcance social da grande reportagem, o jornalista é obrigado a operar nos bastidores da otimização de conteúdo (Social Media Optimization — SMO).

Tal engrenagem invisível impõe o império da infocracia. Essa ideia está no estudo de 2026 de Sofia Herrero Seligmann e Claudio Henrique Nunes de Sena. A pesquisa chama-se A hierarquização da informação na infocracia: SEO, algoritmos e plataformização do jornalismo digital.  No trabalho vê-se que os algoritmos criam uma ordem de leitura oculta. Quando o formato da notícia e o acesso do público a investigações complexas dependem de regras rígidas de arquitetura de busca de plataformas proprietárias, o debate democrático e a pluralidade jornalística correm um perigo real.

Algoritmos e jornalismo discute o novo lide, que é técnico: SEO e os Modelos Pós-Industriais

A engenharia de dados, contudo, não precisa ser necessariamente uma sentença de morte para a qualidade. Lançado em 2023, o estudo SEO no jornalismo digital: uma análise sobre a visibilidade, de autoria de Erick Nunes, aborda a harmonização entre as práticas de Search Engine Optimization e o fazer ciberjornalístico em grandes portais informativos. O autor discute o posicionamento das reportagens nas páginas de resultados dos motores de busca, argumentando que o emprego correto dessas técnicas não desidrata os preceitos éticos da profissão, mas funciona como um canal para garantir a sobrevivência e a circulação da informação de qualidade na web.

Em um mundo pulverizado pela sobrecarga informativa, o SEO atua como um novo mecanismo de lide. Saber escolher palavras-chave e tecer uma rede inteligente de hiperlinks internos é o canal prático para garantir que uma investigação complexa não fique sepultada no fundo das páginas de resultados.

Essa transição para o chamado jornalismo pós-industrial foi minuciosamente mapeada na tese de doutorado de Marcelo Crispim da Fontoura, em 2020. A pesquisa, sob o título O que o jornalismo pode ser: a expansão das fronteiras do jornalismo pós-industrial, diz que o modelo econômico antigo, sustentado pela publicidade em massa, ruiu.

As redações modernas expandiram suas fronteiras

Tal fato aconteceu quando adotaram fluxos de trabalho interdisciplinares, integrando engenheiros de dados e designers de produto ao núcleo editorial. O autor argumenta que, para preservar o papel de vigilância social e a independência da grande reportagem, os veículos de comunicação precisam superar a dependência cega das grandes plataformas, investindo em estratégias de nicho, assinaturas e, principalmente, no engajamento qualificado de suas comunidades.

O Filtro Preditivo: A Visão de Fora

Do outro lado do Atlântico, pesquisadores espanhóis também confirmam que o tráfego gerado por canais de recomendação móvel reconfigurou em definitivo o design editorial. Publicado em 2026 pelo pesquisador Carlos Lopezosa em coautoria com Douglas F. Cordeiro, Olaya López-Munuera e Javier Guallar, o livro Google services for journalists and media: Recommendations for Google Discover and Google News examina o impacto do ecossistema da empresa Google na distribuição e no tráfego de grandes mídias digitais.

A obra destaca o funcionamento técnico de ferramentas de recomendação e agregação. Assim, a diferenciação do fluxo de notícias focado no imediatismo do sistema preditivo e altamente personalizado do Discover.  Consequentemente, atua distribuindo grandes reportagens atemporais de forma personalizada, baseando-se no comportamento prévio do usuário. O segredo para não ceder ao apelo do clickbait barato, segundo os autores, reside em entender que o algoritmo prioriza o tempo de engajamento e a credibilidade histórica do veículo.

Complementando essa visão, há o livro Google Discover: uses, applications and challenges in the digital journalism of Spain, Brazil and Greece. A obra foi lançada em 2024 pelo renomado pesquisador Lluís Codina, ao lado de Carlos Lopezosa, Dimitrios Giomelakis e Leyberson Pedrosa.

Nela mapeia-se – sob uma abordagem comparativa internacional – as percepções de editores de SEO e diretores de redação sobre o impacto prático do algoritmo preditivo da Google nas rotinas jornalísticas. Os autores tratam o tráfego gerado por canais de recomendação móvel como um elemento de reconfiguração do design editorial, obrigando os jornalistas a repensarem as estruturas da arquitetura de suas grandes reportagens de fôlego.

Além disso, Codina alerta para o risco da padronização dos formatos textuais diante da visibilidade algorítmica e faz uma defesa vigorosa. Em contrapartida, sustenta que as redações que mantêm núcleos dedicados de inteligência técnica conseguem posicionar reportagens complexas de formato longo com muito mais eficácia. A tecnologia deixa de ser um muro e passa a funcionar como uma alavanca para a sustentabilidade de coberturas de alto impacto.

Em resumo

Ontem:
redação Google leitor

Hoje:
redação Google IA leitor 

A Próxima Fronteira: o Eclipse da Busca pelas IAs e LLMs

A virada tecnológica atual, no entanto, coloca um ponto de interrogação sobre tudo o que sabíamos até aqui. O tráfego orgânico convencional, baseado em cliques em links, está sendo atropelado por Modelos de Inteligência Artificial e LLMs (Large Language Models). Um exemplo disso está  nas arquiteturas por trás de assistentes como o ChatGPT, o Gemini e o Claude. O mecanismo de IA generativa mudou a lógica: os buscadores agora processam, sintetizam e entregam a resposta direta nas chamadas AI Overviews. E é assim que transita o casal do momento na comunicação, os algoritmos e Jornalismo.

É o fim do tráfego fácil.

Se o leitor pesquisa por um evento complexo, a IA resume os dados nativamente na interface, trazendo as informações organizadas e eliminando a necessidade de clicar no portal que passou meses apurando a história.

Nesse cenário de terra arrasada para os cliques, a estratégia migra do SEO clássico para o GEO (Generative Engine Optimization).

Por fim, o desafio do editor de reportagens especiais não é mais agradar a robôs de indexação antigos para aparecer em uma lista de links, mas sim garantir que seu texto em profundidade e suas fontes exclusivas sejam tão robustos e confiáveis a ponto de serem indexados como a fonte oficial de fundamentação e citação dentro das respostas geradas pelas próprias IAs.

De todo modo, a força do conteúdo sério sempre se impõe. Por isso, dominar o que se escreve e manter o rigor metodológico continua sendo a única forma duradoura de ganhar a confiança de todos, humanos ou algoritmos.

No fim das contas, talvez nunca tenhamos escolhido tanto e decidido tão pouco. Afinal, os algoritmos organizam a abundância, mas continuam incapazes de produzir aquilo que ainda distingue o jornalismo: investigação, contexto e responsabilidade.

Fábio de Amorim é jornalista (Unesp), doutor em Comunicação Audiovisual, escritor e poeta. Unindo sua vivência como editor de texto em grandes redações de TV à paixão pelo ensino e pela literatura, investiga a complexa relação entre ética, tecnologia e produções culturais na era dos dados. É o criador de cursos de redação, autoconhecimento, oratória e do site Caleidoscópio de Amorim, espaço onde publica ensaios, artigos, poemas e reportagens sobre tudo que remete à construção da identidade humana, o que inclui a interseção entre o humano e o digital.

 

Se você gostou de “Algoritmos e Jornalismo: Como as Métricas Moldam a Notícia”, saiba que:

há muitos outros conteúdos interessantes no meu site.

Clique aqui para ver, por exemplo, a minha tese completa sobre comunicação audiovisual, em que discuto, entre outras coisas, tecnologias como a IA. O nome do trabalho é: Ela, de Spike Jonze, no contexto dos novos paradigmas da Era Digital.

Além de reportagens, crônicas, há outros artigos – diferentes do Algoritmos e Jornalismo: Como as Métricas Moldam a Notícia – que abordam os mais diversos assuntos. Também há poemas.
Mas não fique só no artigo Algoritmos e Jornalismo: compre, também, meu livro de contos “Os Suicidas e outras histórias” agora mesmo. Mas se você quer saber mais do que faço neste site, além de poesia, crônicas, contos, jornalismo e artigos etc., por favor, comece clicando aqui para comprar a versão impressa do meu livro (é caro porque tá conectado ao dólar, então, já viu…).
Compre meu livro os suicidas e outras histórias, um livro de contos variados, com temas diversos que passeiam por filosofia, psicologia, literatura, história, música e política
E esta imagem é do meu livro de contos (ah, e não esqueça: compre meu livro os suicidas e outras histórias!). Alguns desses textos escrevi quando estava em Bauru, no mesmo período em que terminei o projeto de conclusão de curso de jornalismo (Caleidoscópio: documentário dos 100 anos de Bauru em 1995, clique para ver o vídeo). Por exemplo, o conto Cru é ambientado numa cidade do interior (claramente inspirado em Bauru).

Mas veja só: o livro digital é muito barato, 7,50. Então, se quiser comprar a versão digital enquanto o dólar estiver alto, clique: Os suicidas e outras histórias <= clique no link e compre a versão digital. É isso.

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Resumo do que há no livro:

São personagens atormentados, no limite, que buscam, então, amor e precisam conhecer a si mesmos primeiro. Uma homenagem à vida na figura da minha avó materna (em Os Suicidas). Além disso, é uma ironia sobre nossa relação com a mídia televisiva (em Pano de Fundo).

Uma história de amor que não aconteceu (em Sonhos).

Mas não só isso: também é uma análise sobre os diferentes tipos de crueldade (em Cru). A história de uma criança de rua (ou de várias delas) que não se resolve nunca e parece um círculo vicioso (em Longa história…). São reflexões sobre isolamento social desde o nascimento (em A elipse).

Ainda tem uma história metalinguística, sobre aparências, memória imprecisa e pontos de vista (em As deslembranças), com final surpreendente.

Desse modo, sobra o último conto…

… A Rosa. Este faz parte de uma trilogia ainda inacabada (Pátria Amada). É um conto que usa fatos históricos e personagens reais do Brasil para contar algo inventado: por que o mecânico Otávio de Souza escreveu o poema/letra da música Rosa, de Pixinguinha?

Bom, por que, na verdade, ninguém sabe; assim, o conto inventa o motivo.

Portanto, esse é o argumento…

… para criar a história de amor entre Otávio e Rosa. Paralelamente a esse amor, há um pano de fundo: a história do Brasil, no Rio de Janeiro dos anos 10, 20 e 30 do século XX. Muitos fatos no conto realmente aconteceram.

Algo assim como Forrest Gump, interagindo com personagens históricos. Ou algo como no filme Shakespeare Apaixonado, em que os roteiristas inventaram o motivo do dramaturgo ter escrito Romeu e Julieta. Por isso, o conto A Rosa usa, então, a música para contar a história do Brasil e do romance entre Otávio e Rosa.

O projeto ficou tão bom…

… que o autor F. de Amorim (eu mesmo) começou a segunda parte (que se passa nos anos de 1960 a 1970). E ainda fará a terceira. Todos os contos, contudo, representam uma valorização da poesia, do amor, mas não só isso, porque há também suas dimensões no mundo contemporâneo, ainda que muitas das histórias tenham sido escritas na década de 1990.

Desse modo, continue aqui no site e explore à vontade!!

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